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arquitextos ISSN 1809-6298


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português
O artigo analisa a geração de espacialidades habitacionais no projeto Next 21 (Osaka, 1993). O conjunto é avaliado por meio de sua inserção urbana, seus espaços coletivos e as unidades habitacionais, traçando paralelos com as ideias de John Habraken.

english
The paper analyzes the housing spatialities in Next 21 project (Osaka, 1993). The set is evaluated through its urban integration, its collective spaces and housing units, drawing parallels with the ideas of John Habraken.

español
El artículo analiza las de espacialidades de vivienda em el proyecto Next 21 (Osaka, 1993). El conjunto se evalúa a través de su integración urbana, sus espacios colectivos y unidades de vivienda, estableciendo relaciones con las ideas de John Habraken.


como citar

MORAIS, Lívia Paula Zanelli de. Next 21. Experimentações em espacialidades habitacionais. Arquitextos, São Paulo, ano 18, n. 213.04, Vitruvius, fev. 2018 <http://1www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/18.213/6899>.

Para Michael Speaks (1), a teoria mudou a prática de arquitetura entre as décadas de 1970 e 1990 e os trabalhos desenvolvidos por Bernard Tschumi, Peter Eisenmann e Rem Koolhaas são exemplos. Embora havendo consequências reais para a prática, como salienta o mesmo autor, a ênfase na teoria de arquitetura perde força no final dos anos 1990, em função do surgimento de um novo ciclo que combinou pragmatismo e aumento da demanda por arquitetura construída. Além das discussões sobre a teoria, outros temas emergem no campo da arquitetura a partir da década de 1990. Como exemplo, os avanços na tecnologia que permitem novas possibilidades para os processos de projeto, fabricação e representação. Entram em pauta também o fenômeno starchitect e as últimas recessões econômicas que contam como fatores para se repensar o campo de atuação da disciplina arquitetônica. A era digital traz algumas reflexões sobre o papel da arquitetura em relação à globalização e o significado da digitalização (um meio que oferece possibilidades pouco exploradas, como por exemplo, a facilidade para uma maior participação do usuário). Esses assuntos acompanham a disciplina passando por projetos de diferentes escalas influenciando a configuração dos espaços, desde as habitações individuais até os projetos urbanos. Nesse ponto, é importante também abordar a configuração dessas novas espacialidades, especialmente pensando a habitação como cidade. As alterações nos espaços habitacionais – e aqui seus espaços coletivos funcionam como importantes articuladores da relação habitação-cidade - podem contribuir para a renovação do espaço urbano.

O objetivo deste artigo é analisar os aspectos inovadores do projeto Next 21 em relação às espacialidades habitacionais. Diante do exposto, tal análise é realizada em três esferas: a inserção do edifício na cidade; o conjunto; a unidade habitacional.

A relevância do assunto se justifica pela busca da solução do programa habitacional, que segue como tema base da arquitetura desde suas origens, com a habitação multifamiliar exercendo um importante papel não só na prática de arquitetura, mas também no desenho urbano. O desafio da arquitetura moderna de suprir a demanda por moradia frente ao aumento populacional das cidades contribuiu para a difusão de certa uniformidade na habitação. No entanto, na década de 1960, alguns agentes começaram a sinalizar mudanças. Para atender as diferentes demandas da sociedade o arquiteto holandês John N. Habraken desenvolveu a ideia de ‘suportes’, uma estratégia que favorecia a flexibilidade e a participação do usuário na tomada de decisões em relação à construção do espaço habitacional. A pluralidade no pensamento da arquitetura e urbanismo também aparece no manifesto de Robert Venturi, Complexidade e Contradição (1966) e em Collage City (1970), de Colin Rowe e Fred Koetter, no qual a uniformidade do modernismo era rejeitada e deveria ser revista. Anos mais tarde, Delirious New York (1978), de Rem Koolhaas, também contribuiria para o afastamento do pensamento uniforme moderno com seus conceitos de acumulação e justaposição de diferenças na cidade.

Nesse contexto, a diversidade como conceito orientador para o desenvolvimento da habitação de massa se consolida como um aspecto importante do discurso arquitetônico a partir dos anos 1970, e, em especial na Holanda e Japão que o fazem em conjunto com novas experimentações tipológicas.

Assim, o início dos anos 1990 marca a diluição de padrões rígidos de projeto - controle, estabilidade e repetição - frente à indeterminação e mutabilidade da cidade contemporânea. Com isso, o conceito de projeto como uma composição fechada começa a ceder espaço para sistemas abertos que permitem uma maior variedade de combinações. Nesse contexto, o tema da habitação surge como possível propositor de elementos reestruturadores da cidade, especialmente frente aos modelos anteriores já esgotados. A partir de então, questionamentos sobre a revisão do projeto habitacional aparecem com mais frequência, não somente em relação ao programa da unidade (para atender aos novos modos de vida que demandam espaços mais heterogêneos), mas também em relação a sua inserção no tecido urbano. O que se imagina é um potencial aumento da escala de atuação do habitat, que poderia impulsionar a renovação do espaço residencial não só através da área onde está inserido, mas também na configuração, segundo expressão de Manuel Gausa (2), de ‘novas ordens urbanas’. Ordens que não se restringem à edificação, mas que se expandem para redes (de transporte e comunicação, por exemplo) que asseguram seu desenvolvimento. Faz-se importante também a consideração da diversidade, que coloca a habitação em convivência com outras atividades heterogêneas. As aglomerações urbanas passam a ser marcadas por espaços urbanizados heterogêneos e descontínuos. Feitas essas considerações, nota-se a importância do desenvolvimento de projetos com aspectos mais estratégicos do que figurativos, ou seja, que se relacionam com linhas de força, fluxos e aspectos imateriais, nos quais a habitação avança além das questões de desenho ou da tipologia para um papel mais estrutural e relacionado com os sistemas articuladores que organizam o espaço urbano contemporâneo. Tais sistemas habitacionais surgem como resposta às questões programáticas e espaciais que resultam em um projeto não só de habitação, mas de possíveis estruturas que atendem às dinâmicas locais e globais ao mesmo tempo. Nesse sentido, o conceito open building é apresentado na sequência, reaparecendo posteriormente na análise do projeto Next 21, assim como nos tópicos ‘contexto Japão’, sobre o recente histórico destes projetos no país; e ‘contexto global’, sobre outras iniciativas habitacionais do mesmo período.

Open Building

Durante os anos 1960, John N. Habraken já discutia a revisão do papel da casa, com os habitantes participando mais efetivamente no processo de desenvolvimento da habitação. A crítica do Team X ao planejamento moderno influenciou o pensamento de Habraken. Seu livro Supports (1962) é uma crítica à habitação coletiva dada como solução ao problema habitacional no pós-guerra, já que tal modelo eliminava o usuário do processo de desenvolvimento da moradia.

Habraken formulou a ideia de suporte como um conceito básico na habitação pensando o sistema como uma construção que permite o fornecimento de moradias que podem ser construídas, alteradas e desmontadas, independentemente das outras unidades do edifício. Ele vai além da planta livre e pensa no edifício livre (abertura do edifício não só em planta, mas também em fachada), partindo do princípio de separação da estrutura (suporte) e do conteúdo como meio de dar aos usuários um papel participativo no processo de projeto, já que são os futuros habitantes que deverão preencher os espaços internos conforme suas necessidades.

As ideias de Habraken evocam as imagens da Plug-in City de Peter Cook e a New Babylon de Constant Nieuwenhuys, mas seu foco não era a crítica à sociedade e sim ao processo habitacional estático. Ele enfatizava o lado social da construção de habitações destacando que os processos construtivos ditavam um produto pronto para o usuário ao invés de ser primeiro um processo social e depois uma questão técnica e organizacional.

Atualmente, Holanda, Estados Unidos e Japão lideram as iniciativas open building formalizando em 2000 o grupo de estudos W104 que debate regularmente o tema dentro das bases de Habraken: a) usuários tomam decisões de projeto; b) projeto é um processo com múltiplos participantes e profissionais; c) a interface entre os diferentes sistemas deve permitir a troca de um sistema por outro que desempenhe as mesmas funções; d) o ambiente construído está em constante transformação, mudanças devem ser reconhecidas e entendidas; e) o ambiente construído é produto de um processo em andamento (3).

Next 21

O projeto é desenvolvido em um contexto japonês, mas que é também global, de envelhecimento populacional e de novas configurações familiares – pessoas sem laços familiares que coabitam um mesmo espaço, casais sem filhos, famílias com diferentes gerações vivendo juntas – propondo soluções adaptáveis à arquitetura para atender as mudanças demográficas. O projeto é uma iniciativa da empresa Osaka Gas Company e foi iniciado em 1993 sob a coordenação do professor da Universidade de Tóquio, Yositika Utida, que convidou treze arquitetos para projetarem as dezoito unidades habitacionais que compõem o conjunto. Em 1994, funcionários da empresa mudaram-se para o edifício inaugurando um experimento em constante mudança e adaptação.

Next 21, diagramas com ruas, espaços coletivos e áreas verdes, Osaka
Imagem divulgação [Lívia Paula Zanelli de Morais]

Trata-se de um edifício de uso misto, constituído por apartamentos, escritórios, área comercial e espaços coletivos. O projeto tem seis pavimentos conectados por diversos núcleos de escadas e elevadores e essa circulação vertical se conecta a uma rede de circulação horizontal que muda em cada andar (corredores, passarelas, galerias ajardinadas), o que gera um tipo específico de estrutura de habitação e fachada interna. O edifício tem diferentes tipologias habitacionais que variam no tamanho e programa. Essa diversidade de apartamentos é organizada em um bairro vertical permeado por jardins. As habitações contam com área externa, podendo ser varandas ou terraços.

A cidade no edifício

A circulação na Unitè d’Habitation, com a ideia de rua interna que se repete nos pavimentos, é revista no Next 21 por meio de caminhos internos diferentes em cada andar que podem ser acessados livremente desde o pavimento térreo com comércio e jardins até a cobertura, passando pelas habitações.

A presença de espaços intermediários abertos no projeto potencializa a relação habitação/cidade e os tornam espaços de socialização, além disso, existem áreas dentro
das unidades que se relacionam com o exterior, como varandas e terraços, de modo que se estabeleçam relações visuais entre a rua e a habitação. O projeto apresenta, portanto, três tipos de espaços: espaços de domínio público, espaços de domínio privado e espaços intermediários que dissolvem os limites entre cidade e habitação. A ideia de continuação da rua ainda tem a função de articular e comunicar as unidades habitacionais por meio dos percursos internos e demais espaços cobertos onde tais “ruas” se desdobram.

Para Habraken (4), o espaço público interior é importante como parte de outros padrões de espacialidades no tecido urbano. Nesse sentido, Next 21 foi concebido pelo professor Utida, como um desenho urbano tridimensional – não se define onde a cidade termina e onde começa o edifício, levantando novas questões sobre a hierarquia territorial. O projeto engloba o conceito de um bairro vertical com espaços de circulação alargados, denominados ‘avenidas’ e jardins ecológicos que permitem a interação social, além de atividades ao longo dos espaços coletivos do edifício.

Espaços múltiplos

O Next 21 combina áreas comerciais e espaços públicos em convivência com as habitações. Nos espaços coletivos existem soluções arquitetônicas que buscam relacionar a habitação às áreas públicas. As circulações também assumem um papel de espaço de convivência por suas diversas características e localização dando continuidade à ideia de rua que permeia o edifício. Observa-se que no resultado final dos espaços coletivos, o Next 21 posiciona a arquitetura como ferramenta de desenho e gestão da cidade, elevando o papel da habitação de célula unifuncional para um possível articulador do complexo urbano.

Next 21, planta do embasamento, Osaka. Espaços multiuso (azul), centro de reciclagem (2) e sala de energia (3)
Imagem editada por Lívia Paula Zanelli de Morais [GA Japan, n.6, 1994]

Next 21, planta primeiro pavimento, Osaka. Espaços multiuso (azul), escritório/centro de informação (9), salas de conferências (10 e 11), jardins (verde)
Imagem editada por Lívia Paula Zanelli de Morais [GA Japan, n.6, 1994]

Next 21, planta segundo pavimento, Osaka. Espaços multiuso (azul), habitações (vermelho)
Editada por Lívia Paula Zanelli de Morais [GA Japan, n.6, 1994]

Graças à implantação em “U”, os jardins criam uma ligação interior-exterior, de modo que a vegetação aparece como elemento integrado ao projeto e que também é necessária para gerar maior conforto térmico. Ainda, considerando que o Next 21 é a decomposição de uma fatia da paisagem urbana, que ao invés de ter suas casas umas ao lado das outras, empilha as unidades em um único volume, o projeto cria espaços na verticalidade e libera o térreo para áreas verdes e coletivas. Desse modo, a natureza tem papel importante na geração de novas espacialidades comuns, assim como a flexibilidade total das unidades é fundamental para a geração de novos espaços que se renovam nas unidades.

Next 21, ruas aéreas, espaços coletivos e jardins, Osaka
Imagem divulgação [Osaka Gas Co., Ltd.]

Cenários de diversidade

A busca por diversidade permeia os espaços do Next 21. Das circulações até as unidades, existe a tentativa de uma combinação das necessidades dos diferentes usuários. No entanto, o conjunto tem uma aparência homogênea, ou seja, a diversidade interna não se revela nas fachadas externas.

O projeto apresenta dezoito tipologias diferentes, alguns tipos contam com área de trabalho e as unidades têm espaço exterior próprio, seja na forma de varandas ou terraços. As unidades se diferenciam em tamanho, localização, divisão dos espaços internos, número de dormitórios (um a quatro), número de pavimentos e acessos (corredor, passarelas, escadas).

Apesar do sistema de instalações possibilitar a configuração de áreas mais abertas e integradas, diversas unidades têm espaços compartimentados com várias divisões entre os ambientes, mas com configurações que quebram a separação tradicional entre espaços social, íntimo e de serviços. A unidade 303 conta com quatro dormitórios (chamados de espaços B) com acessos independentes por fora; um espaço aberto comum com cozinha faz a integração entre os moradores que podem ser quatro amigos que coabitam a mesma unidade.

Next 21, planta terceiro pavimento, Osaka
Imagem editada por Lívia Paula Zanelli de Morais [GA Japan, n.6, 1994]

As unidades contam também com espaços para atender as necessidades específicas de cada morador, como espaço de trabalho, sala de tatame, terraço interno, espaço para cultivo de bonsai, biblioteca, sala de ginástica e sala de chá.

A diversidade é potencializada pelas fases, a cada cinco anos, em média, uma nova fase é iniciada e as habitações são reformuladas para atender as necessidades dos novos moradores. Cada fase enfatiza um tema a ser considerado nas remodelações, mas sempre tratando de questões relacionadas ao meio ambiente. A primeira fase (1994-2000) sugeria a conservação de energia e a proteção ambiental, a segunda fase (2000-2007) tinha como tema o meio ambiente global e a vida humana, a terceira fase (2007-2013) trabalhou com a ideia de residências urbanas sustentáveis e a quarta e atual fase (2015-2020) discute as perspectivas para o futuro da habitação e da energia.

Next 21, interiores das unidades habitacionais, Osaka
Foto divulgação [Osaka Gas Co., Ltd.]

É importante destacar que a configuração dos espaços coletivos é afetada pelas mudanças nas unidades, especialmente quando há alterações nos acessos às habitações. Ainda, o grande desafio das mudanças de fases é o custo atrelado à gestão de tempo. Por isso, em 2002, o arquiteto Hiroyuki Sasakura realizou a remodelação da unidade 405 (de aproximadamente 85 m²) como um experimento para diminuir o tempo de obra respeitando o orçamento inicial (U$65.000). O resultado foi a conclusão das alterações em quatorze dias e o reaproveitamento de 85% dos materiais. (5)

Next 21, quarto pavimento antes da divisão da unidade 404 que deu origem à unidade 405, Osaka
Imagem editada por Lívia Paula Zanelli de Morais [GA Japan, n.6, 1994]

Next 21, quinto pavimento com rua elevada, Osaka
Editada por Lívia Paula Zanelli de Morais [GA Japan, n.6, 1994]

Next 21, sexto pavimento, Osaka
Editada por Lívia Paula Zanelli de Morais [GA Japan, n.6, 1994]

Next 21, cobertura com espaços coletivos, Osaka. Espaço multiuso (azul), jardins (verde)
Imagem editada por Lívia Paula Zanelli de Morais [GA Japan, n.6, 1994]

Contexto Japão

No contexto japonês, o desenvolvimento de projetos open building se iniciou nos anos 1970, portanto o Next 21 não se trata propriamente de uma novidade no país e sim de um avanço em relação aos projetos antecessores.

O histórico do open building no Japão se difere de outros países pela própria tradição na construção de casas com estruturas leves de madeira e divisórias de correr do país, de modo que certa flexibilidade nos espaços já era mais aceita culturalmente pelos japoneses.

As iniciativas habitacionais adotando a ideia de suporte se iniciam no pós-guerra com a fundação da Japan Housing Corporation, em 1955. No entanto, é na década de 1970 que o conceito se consolida. Nessa época, é lançado o concurso Pilot House Technology Development Competition, com vários projetos propondo a ideia de suporte e espaços livres organizados por painéis divisores. Assim, arquitetos e engenheiros já buscavam projetar tipos diferentes de layouts em apartamentos com divisórias móveis.

Em 1974, a Japan Housing Corporation inicia o desenvolvimento do sistema KEP (Kodan Experimental Project), sob a supervisão do professor Utida. O novo sistema era composto por quatro subsistemas: paredes externas, paredes internas, sistema sanitário e sistema de ventilação e ar condicionado. O KEP System foi implantado em 1980 no projeto Menu System, que permitia aos moradores escolherem o layout de suas unidades. Destaca-se que este projeto já adotava o piso elevado como solução para flexibilidade nas instalações elétricas e sanitárias, estratégia adotada posteriormente pelo Next 21.

Também em 1980 é lançado o CHS (Century Housing System) que tinha a premissa de aumentar a vida últil de um edifício por meio da independência entre seus sistemas que poderiam ser trocados independentemente. As pesquisas sobre o tema continuam e, em 1992, é construído um projeto open building no formato de cooperativa: 100 apartamentos foram projetados por diversos arquitetos com o intuito de atender a diversidade de uma vida em comunidade (6).

Finalmente em 1994 a construção do Next 21 é concluída provocando grande divulgação do conceito de separação entre esqueleto e enchimento, graças à sua ideia de desenho urbano tridimensional. Aqui, a geração de novas espacialidades está vinculada não somente às mudanças espaciais advindas das necessidades dos usuários, mas também à ideia de habitação como conformadora de cidade, especialmente pelo contexto onde o projeto está inserido, uma área central adensada onde os edifícios se fecham em relação ao entorno.

Contexto global

No contexto global da época em que o projeto Next 21 foi desenvolvido - a partir dos anos 1990 - é observado uma busca pela redefinição da habitação como renovadora do espaço urbano, levantando questões sobre a hierarquia territorial. Assim, é importante destacar algumas iniciativas, para além do open building, no contexto mundial traçando paralelos com o Next 21.

Next 21, interior de apartamento, Osaka
Foto Hiroyuki Kawano [Cortesia do OMA]

O projeto Nexus Housing (Fukuoka, 1987-1990), do OMA de Rem Koolhaas, trabalha com padrões variáveis ainda que suas 24 habitações mantenham um mesmo princípio. O programa das 6 diferentes tipologias varia entre dois, três e quatro dormitórios e apresenta ainda outras alterações internas buscando uma identidade para cada moradia, mas mantendo a ideia central de comunidade. Por priorizar o interior do conjunto ao invés do entorno, a investigação espacial enfatiza cada unidade que oferece uma variedade de condições espaciais contrastantes: espaços confinados ou expostos, íntimos ou abertos, públicos ou privados, claro ou escuro, alto ou baixo, concreto ou abstrato. Ainda, a flexibilidade dos espaços é tratada por meio de elementos móveis que permitem variadas configurações dos espaços. Apesar de não ser um projeto open building, o Nexus Housing busca atender as mudanças demográficas da sociedade contemporânea por meio da oferta não só de diferentes tipologias, mas de espacialidades variadas.

Já o também holandês MVRDV tem influências mais diretas de Habraken, o que se reflete no projeto Silodam (Amsterdam, 1995-2003) que busca por meio da diversidade de tipologias atender às necessidades de uma sociedade contemporânea e dinâmica. A inserção de um programa de uso misto, sua distribuição junto às habitações e a formatação dos espaços coletivos tem um grau significativo de inovação e contaram com a participação de possíveis usuários e clientes. No entanto, esse desenvolvimento para na porta dos apartamentos: seu exterior passa a impressão de uma rica variedade para diferentes usuários, fazendo o observador imaginar que tamanha variedade se reflita nas unidades habitacionais, porém, mesmo com 22 tipologias distintas, percebe-se que as unidades variam em tamanho e materialidade, mas nem tanto em programa e distribuição espacial. O conceito de suportes é utilizado com maior profundidade pelo MVRDV em sua proposta para o concurso Sluishuis (Amsterdam, 2002), em que fachadas e interiores seriam formulados pelos futuros moradores em uma solução mais radical que o Silodam para atender a real demanda por diversidade.

MVRDV, conjunto habitacional e de escritórios Silodam, Amsterdã, Holanda
Foto divulgação [Acervo escritório MVRDV]

Considerações sobre o projeto

A partir da análise desenvolvida, são realizadas as seguintes observações: 1) quanto ao entorno, o projeto considera o território existente e adensado da área central de Osaka, de modo que a habitação coletiva contribui na ativação do espaço urbano; 2) em relação ao conjunto, a solução de implantação em ‘U’ abre-se para a cidade, integrando a rua e valorizando os espaços coletivos, bastante versáteis; 3) os aspectos observados anteriormente se refletem na unidade habitacional, as plantas são resultado da busca por diversidade e, por sua vez, geram uma pluraridade social no edifício. Entende-se, portanto, que a solução formal do edifício, associada às diferentes formas de circulação, consideram a habitação como desenho urbano, ao invés de buscar uma solução fechada para o entorno tão comum em grandes cidades.

Desse modo, o Next 21 marca uma transição na habitação coletiva ao evoluir em relação à uma maior liberdade para o usuário com sua variedade social e arquitetônica. A inovação do projeto em relação aos seus antecessores japoneses é sua abertura para a cidade, levando a rua para dentro do edifício por meio da articulação de seu sistema de acesso, sendo às vezes definido como um caminho ramificado, corredor, ponte ou escada e que se desdobra em espaços coletivos. Ainda, o conceito de suporte de Habraken se manifesta pelo desenho urbano tridimensional do professor Utida, que enfatiza o espaço público interior como parte de outros padrões de espacialidades no tecido urbano. O edifício integra em sua estrutura parte da complexidade funcional da cidade, pois abriga não só habitações, mas também equipamentos de uso coletivo e áreas comerciais que são capazes de diluir os limites entre os espaços públicos e privados.

No entanto, nota-se um afastamento da teoria de Habraken em relação à liberdade do enchimento quando da análise das unidades habitacionais. Existe uma potencialização das regras do open building pelos japoneses, fato que demonstra a existência de preocupações técnicas e de gestão do edifício que tentam responder às questões culturais japonesas em relação à falta de uniformidade das fachadas em outras experiências open building no país. Nesse ponto, o projeto acaba por limitar a participação dos usuários que se deparam com restrições para a escolha de painéis internos e externos, ou seja, os moradores poderiam expressar sua individualidade formatando suas próprias fachadas dentro de uma cartela mais ampla de elementos e cores predeterminados.

Assim, a maior contradição do projeto talvez seja que seu exterior uniforme não reflita a rica variedade existente no interior (especialmente considerando que o projeto foi concebido para um estilo de vida bastante individualizado do século 21). Ainda, a delimitação de fases restringe que as grandes mudanças aconteçam somente com data marcada. Nesse sentido, a ideia de Habraken sobre a importância em se reconhecer o ambiente construído como um processo em constante transformação, parte por parte, acaba enfraquecido.

Desse modo, resgatamos o projeto do MVRDV para o concurso do Sluishuis que coloca plataformas abertas com espaços e fachadas a serem definidos pelo usuário, bem ao modo de Habraken. É a radicalidade do Sluishuis que o torna referência na discussão da diversidade na habitação, atendendo de forma mais precisa os diferentes usuários. De qualquer maneira, sendo regulamentada como no projeto japonês ou liberal como Sluishuis, o reconhecimento da importância da diversidade é um fator positivo para a geração de novas espacialidades no projeto Next 21.

notas

1
SPEAKS, Michael. Theory was interesting… but now we have work. Architectural Research Quarterly, n. 3, Cambridge, 2002, p. 209-212.

2
GAUSA, Manuel. Housing, nuevas alternativas, nuevos sistemas. Barcelona, Actar, 1998.

3
HABRAKEN, John N. Open Building: brief introduction. N. John Habraken <www.habraken.com/html/introduction.htm>

4
HABRAKEN, John N. The Structure of The Ordinary: Form and Control in the Built Environment. Cambridge, MIT Press, 1998, p. 38.

5
SASAKURA, Hiroyuki. Variable infill system rearrangement experiment for residence 405 at Osaka gas experimental housing Next21. SB05 Tokyo: Action for Sustainability - The 2005 World Sustainable Building Conference in Tokyo. Rotterdam, 2005, p. 2940-2947.

6
FUKAO, Seiichi. The History of Developments toward Open Building in Japan. Ball State University, College of Architecture and Planning, Muncie, 2008, p. 64-71.

sobre a autora

Lívia Paula Zanelli de Moraisoutoranda na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU USP). Mestre pelo Instituto de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (IAU-USP). Arquiteta e Urbanista graduada pela Universidade de São Paulo (EESC-USP). Docente no curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade do Sagrado Coração. Realiza pesquisas nos seguintes temas: habitação multifamiliar, processos de projeto, teoria de arquitetura, arquitetura contemporânea.

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