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drops ISSN 2175-6716

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O Prêmio APCA 2017 – Categoria “Urbanidade” foi ao Sesc 24 de Maio, projeto dos arquitetos Paulo Mendes da Rocha, Marta Moreira, Milton Braga e Fernando de Mello Franco, com participação institucional de Danilo Santos de Miranda.

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PERROTTA-BOSCH, Francesco. Categoria “Urbanidade”. Sesc 24 de Maio, Paulo Mendes da Rocha; MMBB (Marta Moreira, Milton Braga e Fernando de Mello Franco); Danilo Santos de Miranda. Drops, São Paulo, ano 18, n. 125.06, Vitruvius, fev. 2018 <http://1www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/18.125/6884>.



A verticalidade converte-se em ascensão. A cada nível que o peregrino se eleva, descortina-se uma nova e diferente bem-aventurança. Em meio à caótica mundaneidade, adentra-se num território da redenção moral. A viagem proporcionada por Paulo Mendes da Rocha no Sesc 24 de Maio (1) encontra seu grande precedente na condução pelos céus do Paraíso que Dante Alighieri engendra na Divina Comédia.

Estamos no âmago da cidade de São Paulo: seria este como a “selva escura” apontada já no primeiro terceto da obra-prima poética? Seria como o purgatório? Ou mesmo o inferno? Pouco importa aqui definir qual é a exata imagem análoga para ilustrar o contexto que o arquiteto encontra. As origens e a potência do poema épico e da arquitetura epopeica estão numa certa tragicidade dos contextos aos quais se contrapõem. Mais do que contraposição, há neles um caráter salvacionista.

Seja a aparente decadência do centro paulistano e a conjuntura brasileira da década do 7x1, seja a dissolução do sistema feudal e da ética cristã no norte da Itália no crepúsculo do medievo (2), os dois grandes autores fazem as vezes de porta-vozes culturais a demonstrar caminhos para uma grande reforma. Uma reforma social por meio da transformação da postura do indivíduo perante o coletivo. Do ser humano no seu estar no mundo.

Tão afeito à concepção de um corte quanto Dante, Paulo Mendes da Rocha apresenta-nos uma nova trajetória. As rampas são a versão arquitetônica de Beatriz, aquela que ao fim do Purgatório sucede o poeta latino Virgílio enquanto guia do eminente narrador. Em cada andar do Sesc 24 de Maio a que se assoma, pode-se testemunhar e vivenciar beatitudes tal como nos céus do Paraíso da Comédia.

A felicidade plena ganha diferentes conotações a cada altura. As danças do céu de Vênus não devem ser tão distintas das coreografias entre os quatro planos espelhados do décimo andar do Sesc. O quarto estágio da antiga jornada corresponde ao quarto pavimento da nova empreitada: no céu do Sol, a sabedoria é revelada na interlocução com o filósofo São Tomás de Aquino, o rei Salomão, Boércio, Dionísio o Areopagita, Pedro Lombardo, também encontrados na Biblioteca paulistana. Os contemplativos do céu de Saturno reencontram seu lugar no andar da Convivência, o terceiro. Os cânticos do céu de Marte rejuvenescem no alvoroço dos pavimentos oito e nove, destinados ao esporte e ao espaço das crianças. A cosmologia de Aristóteles e Ptolomeu, que alicerça o grande poeta toscano, parece reverberar no imaginário do arquiteto brasileiro.

Não há nada mais celestial que a estrutura espacial da diáfana fachada que ladeia as beatas rampas. O angelical trabalho à mão de dobrar, soldar, aparafusar um sem-número de barras metálicas para fixar incontáveis placas de vidro. A transparência que nos faz vislumbrar um desolador fragmento da urbe ao fundo é menos significativa que as infinitas constelações que temos ao alcance das mãos.

Curiosamente, o papel do vidro no Sesc 24 de Maio é mais enigmático que esclarecedor. Este arquitetônico Paraíso não se revela por fora: é uma genérica caixa vítrea que espelha as deterioradas edificações que o circundam. Contudo, diferentemente de Dante, não há barreiras meritocráticas para adentrá-lo. Caso queiram, todos podem entrar nestes céus construídos, os quais sempre têm a Terra como horizonte.

Quando findam as fachadas de vidro, temos o Jardim da Piscina. Neste ambiente de planta livre, em virtude da ausência de compartimentações, somos convidados a olhar o movimento dos seres no sublime espaço comprimido (3) entre piso e teto para induzir as pessoas a olharem para “este globo / tal, que sorri pelo seu vil semblante” (4), como Beatriz propôs a Dante no céu das estrelas fixas.

Acima está o ápice destas triunfais viagens: o Primum Mobile – também designado como céu cristalino –, a piscina. Como num ato de reparação histórica, o mais elevado que o espírito humano pode galgar neste Paraíso na pauliceia é a possibilidade de se banhar, de pôr os pés na água, de “pegar jacaré” pelas ondas criadas pelo movimento dos nadadores. Na “selva escura” de córregos canalizados e subterrâneos, de rios imundos e fétidos, ao ser paulistano é ofertada a praia.

Fundamental ressaltar que esta fabulosa aventura propiciada por Paulo Mendes da Rocha só é possível pelo esteio da Trindade arquitetônica composta por Marta Moreira, Milton Braga e Fernando de Mello Franco do MMBB, e sob o mecenato do Sesc, em especial na figura de Danilo Santos de Miranda.

Poderia eu embarcar em outra fábula tão própria a Mendes da Rocha: a fábula da técnica. Ela explica uma série de aspectos do Sesc 24 de Maio que não encontram paralelo na Comédia. Afinal, nela seria complicado incluir a explanação sobre a escavação para a implantação do Teatro. Ou mesmo justificar o andar da odontologia, cuja função mais parece pertencente a um círculo do Inferno do que a um céu do Paraíso. E, não percamos de vista, este Sesc é edificado a partir de uma construção preexistente – uma antiga loja de departamento Mesbla –, a qual tinha um vazio central de 14 por 14 metros, onde o arquiteto pôde erigir quatro monumentais pilares de concreto cuja principal atribuição é de sustentar a pesada piscina de 25 por 25 metros. Por fim, faz-se fundamental mencionar a candura do mobiliário.

Contudo, a metáfora dantesca revela o real cerne das aspirações do arquiteto com este projeto. Paulo Mendes da Rocha nos introduz a um mundo em que prevalece o júbilo e o afeto. A cada andar, a cada céu, enxergamos cenas de autêntica alegria e congraçamento das pessoas. Somos iniciados a um fantástico arcabouço de imagens poéticas. Uma experiência humana verdadeiramente redentora. Portanto, não estamos frente a uma simples reforma de edifício, mas ao protótipo de uma reforma da sociedade.

No Sesc 24 de Maio, é modéstia de Mendes da Rocha afirmar que sua arquitetura é “amparo à imprevisibilidade da vida”, pois nele sua autoral força imaginativa é impressionante, quase sobre-humana. O Sesc 24 de Maio é uma verdadeira obra-prima. Tal como Dante ambicionava transformar o mundo por meio de suas formas poéticas, Paulo Mendes da Rocha o faz por formas arquitetônicas.

A magnitude dos grandes autores está na universalidade do que eles proporcionam.

notas

NE – Desde 2010, a APCA incorporou os críticos de arquitetura, concedendo anualmente sete prêmios. Em 2017, os críticos Abilio Guerra, Fernando Serapião, Francesco Perrotta-Bosch, Gabriel Kogan, Guilherme Wisnik, Hugo Segawa, Luiz Recaman, Maria Isabel Villac, Nadia Somekh, Renato Anelli foram os responsáveis pela seleção dos premiados. Os artigos dedicados à premiação da modalidade Arquitetura e Urbanismo da APCA 2017 são os seguintes:

SOMEKH, Nadia. Prêmio APCA 2017 – Categoria “Resistência urbana”. Bexiga, Vai-Vai; Festa de Nossa Senhora Achiropita; Teatro Oficina; União de Mulheres de São Paulo; Casa de Dona Yayá – Centro de Preservação Cultural da Universidade de São Paulo (CPC USP). Drops, São Paulo, ano 18, n. 125.01, Vitruvius, fev. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/18.125/6868>.

WISNIK, Guilherme. Prêmio APCA 2017 – Categoria “Obras referenciais”. Alberto Xavier. Drops, São Paulo, ano 18, n. 125.02, Vitruvius, fev. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/18.125/6869>.

ANELLI, Renato. Prêmio APCA 2017 – Categoria “Obra de arquitetura em São Paulo”. Instituto Moreira Salles (nova sede na Avenida Paulista), Vinicius Andrade e Marcelo Morettin. Drops, São Paulo, ano 18, n. 125.04, Vitruvius, fev. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/18.125/6881>.

SEGAWA, Hugo. Prêmio APCA 2017 – Categoria “Obra de arquitetura no Brasil”. Moradias de estudantes na Fazenda Canuanã, Rosenbaum (Marcelo Rosenbaum e Adriana Benguela), Aleph Zero (Gustavo Utrabo e Pedro Duschenes), Ita Construtora (Helio Olga). Drops, São Paulo, ano 18, n. 125.05, Vitruvius, fev. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/18.125/6882>.

PERROTTA-BOSCH, Francesco. Categoria “Urbanidade”. Sesc 24 de Maio, Paulo Mendes da Rocha; MMBB (Marta Moreira, Milton Braga e Fernando de Mello Franco); Danilo Santos de Miranda. Drops, São Paulo, ano 18, n. 125.06, Vitruvius, fev. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/18.125/6884>.

GUERRA, Abilio. Categoria “Fronteiras da arquitetura”. Guto Lacaz. Resenhas Online, São Paulo, ano 18, n. 195.01, Vitruvius, mar. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/18.195/6893>.

SERAPIÃO, Fernando. Difusão Cultural: Vicente Wissenbach [no prelo].

1
Sobre o projeto, ver no portal Vitruvius: LIRA, José. Sesc 24 de Maio. O projeto mais fortemente urbano de Paulo Mendes da Rocha. Projetos, São Paulo, ano 17, n. 200.02, Vitruvius, ago. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/projetos/17.200/6654>; RODRIGUES, Felipe SS. Dois corpos ocupam o mesmo lugar no espaço. Arquitetura do Sesc 24 de Maio de Paulo Mendes da Rocha. Projetos, São Paulo, ano 17, n. 201.02, Vitruvius, set. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/projetos/17.201/6673>.

2
Dante escreveu a Divina Comédia no exílio, impedido de voltar à Florença que governara em 1300.

3
PIRAZZOLI, Giacomo. Sull’edificio SESC 24 de Maio. Domus, n. 1017, Milão, out. 2017, p. 60.

4
ALIGHIERI, Dante. Divina Comédia – Paraíso. São Paulo, Editora 34, 2008. Canto XXII, versos 134 e 135, p. 159.

sobre o autor

Francesco Perrotta-Bosch é arquiteto e ensaísta.

Sesc 24 de Maio, São Paulo, arquiteto Paulo Mendes da Rocha + MMBB Arquitetos
Foto Nelson Kon

Sesc 24 de Maio, São Paulo, arquiteto Paulo Mendes da Rocha + MMBB Arquitetos
Foto Nelson Kon

Sesc 24 de Maio, São Paulo, arquiteto Paulo Mendes da Rocha + MMBB Arquitetos
Foto Nelson Kon

Sesc 24 de Maio, São Paulo, arquiteto Paulo Mendes da Rocha + MMBB Arquitetos
Foto Nelson Kon

 

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